✧ Capítulo 6 — Sombra e Esperança

 Vozes da Graça — Arco I: O Chamado da Promessa

🕊️ “O Senhor é bom, é fortaleza no dia da angústia, e conhece os que confiam nele.”
Naum 1:7

Os anos haviam passado, e com eles, a história de como Deus estendeu Sua graça para a humanidade continuava a se entrelaçar com a nossa vida. As gerações se sucediam, mas a memória de como fui escolhido em meio à escuridão do mundo sempre permanecia viva em meu coração.

Naquele dia, enquanto o sol estava no seu auge e lançava longas sombras sobre a terra, algo extraordinário aconteceu. Eu, Abraão, estava sentado à entrada de minha tenda, refletindo sobre as promessas divinas e a jornada que me trouxe até aqui. De repente, avistei três figuras se aproximando, e meu coração se encheu de espanto e reverência. Não era comum ver visitantes em nossa região, e menos ainda era comum que eles carregassem uma aura de divindade.

Levantei-me rapidamente e corri para recebê-los, oferecendo-lhes água e pão, e me assegurando de que estivessem confortáveis. Uma estranha sensação de gravidade pairava no ar, como se o destino de muitos estivesse prestes a ser selado naquele momento.

Quando falaram, a realidade do que estava prestes a acontecer se revelou em minha mente com clareza perturbadora. A destruição de Sodoma e Gomorra não era mais um rumor distante, mas uma sentença iminente. O lamento que senti naquele instante era profundo e doloroso. Olhei para o céu e me perguntei como podia estar aqui, diante da presença de Deus, enquanto tantas vidas estavam prestes a ser ceifadas.

Minha mente voltou para Ló, meu sobrinho, e o desespero tomou conta de mim. Como poderia haver esperança no meio de tanta destruição? Eu sabia que Deus é justo, mas também conhecia Sua misericórdia. A luta entre juízo e compaixão parecia refletir em cada uma das minhas súplicas.

— “Senhor,” clamei, com a voz cheia de urgência, “Tu és justo para destruir os ímpios, mas não seria justo poupares a cidade se encontrássemos apenas alguns justos ali? Talvez haja cinquenta justos… ou quarenta… ou até menos. Não destruas o justo com o ímpio! Por amor à justiça e à misericórdia, não deixarias que a justiça se tornasse opressiva, não é?”

Continuei a implorar, pedindo cada vez menos justos, minha fé e esperança flutuando como vela em tempestade. Cada número que abaixava era um lembrete de como a justiça de Deus e Sua misericórdia se entrelaçam de forma misteriosa e divina. O Senhor ouvia minha súplica, e eu sentia que o peso das cidades estava sobre meus ombros, mas, ao mesmo tempo, uma graça e paz me sustentava, como se o próprio céu se fizesse suave sobre minha jornada.

Finalmente, com uma mistura de alívio e desespero, senti que o Senhor havia ouvido. Mesmo assim, não podia esconder a tristeza ao ver o destino de Ló e dos habitantes de Sodoma e Gomorra pendendo sobre o fio delicado da justiça divina.

Enquanto os visitantes se preparavam para partir, uma reflexão profunda me envolveu, aquietando meu coração em meio à tensão do momento. O peso do pecado que pairava sobre aquelas cidades e o juízo iminente eram inegáveis, mas, no fundo, uma luz cintilava, trazendo consigo a promessa de uma esperança inesperada. Em meio ao caos, fui escolhido. Tive o privilégio de interceder pelos justos, algo que, em minha humildade, parecia ser um presente incomparável de Deus. Cada palavra que proferia, cada súplica, era um testemunho da Sua misericórdia e graça, que transcendem todo entendimento humano.

Que maravilha era saber que, mesmo em um mundo marcado por tanta falha e desesperança, o Senhor permitia que alguém como eu fosse instrumento de Sua compaixão e bondade! A grandeza de Deus e a complexidade de Seus caminhos ainda permaneciam além da compreensão humana, mas, naquele instante, sentia em meu coração o calor de Sua graça, como se ela se derramasse sobre mim, e a alegria de poder tocar o Seu plano eterno através da intercessão. Que privilégio era participar do Seu propósito redentor, uma graça que só Ele poderia conceder, e que fazia tudo ao meu redor parecer pequeno diante da magnitude do Seu amor.

O sol começava a se pôr, e eu sabia que o momento decisivo estava se aproximando. As sombras da tarde se alongavam, e a esperança de uma intervenção divina pairava sobre mim como uma luz fraca em um mar de escuridão.

Assim, em um momento de incerteza, preparei-me para a próxima fase de nossa jornada, consciente de que cada ato de fé e cada oração são passos em direção ao cumprimento do plano divino. E, com fé renovada, perguntava-me como, apesar de tudo, as histórias de graça e redenção continuariam a se desenrolar, revelando a luz mesmo nas sombras mais profundas.

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