✧ Capítulo 1 — O Clamor da Terra
✧ Capítulo 1 — O Clamor da Terra
Vozes da Graça — Arco I: Onde Tudo Começa
🕊️ “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens.”
Tito 2:11
No princípio, a terra gemeu, mas Deus não a abandonou.
A criação carregava as marcas da destruição, mas também a promessa da renovação.
O que parecia um fim era, na verdade, o prenúncio de algo maior:
a voz da graça começava a ressoar entre os homens.
No princípio, eu era pura.
Eu, a Terra, testemunha silenciosa da origem do tempo, não conhecia a dor nem a memória das perdas.
Fui formada pelo toque delicado das ordens do Criador, com a intenção de ser lar, aconchego e sustento para todas as criaturas. Meus campos verdes se estendiam sem limites e os rios cristalinos corriam como veias de vida pulsando em meu corpo. O céu repousava sobre mim como um manto de pureza, e cada amanhecer era uma promessa renovada.
Eu refletia a glória daquele que me formou.
Era através de mim que todos os seres respiravam.
Mas então… o sangue me manchou.
Primeiro, o sangue de Abel.
O grito de um irmão que atravessou o vento e rompeu a paz que eu carregava em meu íntimo. Depois dele, muitos outros vieram. Sangue derramado em nome do poder, da guerra e do ódio.
Cada vida arrancada de mim era uma ferida aberta.
Eu, que antes era fonte de vida, passei a carregar o peso da morte. Minhas cicatrizes se acumulavam — invisíveis aos olhos humanos, mas profundas em minha essência.
O sangue misturou-se à poeira.
A poeira tornou-se lama.
A lama tornou-se ruína.
A terra fértil começou a se tornar estéril, marcada pela violência que os homens impunham uns aos outros. Onde antes havia flores e frutos, agora havia dor e desespero. Eu sentia o sofrimento do mundo em cada centímetro do meu ser, como se todo o meu corpo estivesse sendo consumido pela destruição.
Os rios, que antes cantavam melodias suaves, tornaram-se lamacentos e doentes.
As árvores, outrora firmes e orgulhosas, começaram a se curvar, com raízes sufocadas pela dureza da terra e pela ausência de cuidado.
O vento já não trazia esperança — apenas o odor da corrupção de um mundo que não se reconhecia mais.
Os animais fugiam.
Suas tocas deixaram de ser refúgio e tornaram-se prisões. Seus ninhos, antes sagrados, eram saqueados sem piedade. O rugido dos leões já não expressava majestade, mas fome. Os cervos corriam, não pela liberdade, mas pelo medo.
Até os céus sofreram.
As estrelas, que antes dançavam em balé sobre mim, observavam à distância, mudas.
O sol queimava com intensidade maior, como se tentasse purificar o que não podia mais ser curado. As nuvens choravam, mas suas lágrimas eram insuficientes para lavar a maldade que crescia no coração dos homens.
Eu os vi construir cidades de pedra e sangue.
Cidades que deveriam ser lugares de convivência tornaram-se fortalezas de violência e indiferença. Altares foram erguidos a deuses que não falam, a ídolos que não escutam.
As mãos que antes semeavam agora forjavam lâminas.
O homem — meu guardião — tornou-se meu algoz.
Ele esqueceu o pacto do princípio.
Um pacto de harmonia, respeito e sustento mútuo.
Então, o Criador olhou para mim.
E eu, que não falo, clamei.
Meu grito não ecoou no vento, mas atravessou os céus.
Minha essência gritou em silêncio, implorando por alívio.
O céu ouviu.
As águas dos abismos estremeceram.
A terra tremeu.
A ordem foi dada.
A purificação viria — não como vingança, mas como renovação.
E então… a primeira gota caiu.
Depois a segunda.
E então a chuva, não para destruir, mas para lavar.
Os rios transbordaram.
Os alicerces tremeram.
E eu fui lavada.
Pela primeira vez desde o sangue de Abel, eu respirei.
Respirei aliviada, como se o peso do mundo fosse retirado de mim.
No meio do rugido das águas, destacou-se um som puro e sereno.
Era adoração.
Orações sinceras subiam aos céus vindas de um único lugar seguro: a arca.
Ali, homem e animais preservavam a esperança enquanto eu era purificada.
No coração do caos, a adoração permaneceu acesa.
Eu sabia, no entanto, que a raiz da maldade não havia sido arrancada por completo.
Ela permanecia oculta no coração humano, à espera de solo fértil para brotar outra vez.
O Criador concedeu um novo começo.
Mas eu sabia.
Um dia, eles tentariam alcançar os céus novamente.
📖 Arco I: O Chamado da Promessa
- Capítulo 1 — O Clamor da Terra
- Capítulo 2 — Entre as Ruínas de Babel
- Capítulo 3 — História da Arca
- Capítulo 4 — Promessa da Redenção
- Capítulo 5 — Dois Caminhos, Dois Destinos
- Capítulo 6 — Sombra e Esperança
Navegue pelos capítulos da série Vozes da Graça e acompanhe a jornada.
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