Capítulo 7 – A Sombra do Altíssimo

 

🕊️ Vozes da Graça — Arco II: A Promessa e os Escolhidos

    “Melhor é o pouco com o temor do Senhor do que um grande tesouro onde há inquietação.” Provérbios 15:16

Capítulo 7 – A Sombra do Altíssimo

No abismo escuro desta caverna, envolto pela solidão e pelo desespero, encontro-me em um lugar onde os ecos do passado se prolongam como sombras inquietas nas paredes rochosas. Cada respiração é um eco do que foi e do que poderia ter sido. As memórias se desdobram diante de mim como cenas de um filme que não consigo parar de assistir, como se estivesse revivendo o último dia de minha vida.

Lembro-me vividamente dos dias muito recentes, quando a tragédia desabou sobre Sodoma e Gomorra. Os céus negros se abriram em ira, e o fogo divino consumiu as cidades em chamas, engolfando tudo o que tocava. Fui arrastado para fora da cidade em um frenesi de terror, guiado pelos anjos de Deus que ordenaram que não olhássemos para trás. Minha esposa, incapaz de resistir à curiosidade proibida, se transformou em uma estátua de sal diante dos meus próprios olhos. Sua perda, tão fresca em minha mente, é uma ferida que sangra sem cessar.

Hoje, aqui estou, nas profundezas de uma caverna sombria, cercado pela escuridão que parece engolir tudo ao meu redor. Minhas filhas, órfãs de mãe, buscam refúgio em minha presença, enquanto luto para compreender o significado dos eventos que nos trouxeram a este lugar. A solidão é minha companheira constante, e o arrependimento me consome como as sombras que dançam nas paredes desta caverna.

Ao olhar para trás, vejo claramente as escolhas que me trouxeram até aqui. A decisão fatídica de separar-me de meu tio Abraão, em busca de prosperidade e segurança nas planícies próximas a Sodoma, agora parece uma tolice insensata. O que eu troquei por conforto material e segurança momentânea foi muito mais do que poderia imaginar: a destruição de minha família, a morte de minha esposa e o desamparo de minhas filhas.

Meu coração se parte ao pensar nas palavras de advertência de meu tio, na sua fé inabalável que sempre nos guiou. Se ao menos pudesse voltar no tempo, se pudesse desfazer aquela escolha imprudente que nos levou à beira da ruína. A tristeza e o pesar inundam meu ser enquanto percebo a profundidade de meu erro e a falibilidade de minhas próprias decisões.

A jornada ao lado de Abraão foi uma experiência transformadora. Atravessamos desertos vastos e montunhas imponentes, guiados pela promessa divina de uma terra fértil e de uma descendência numerosa. Canaã era o ponto culminante de nossos sonhos e, ao chegarmos, senti o calor do sol sobre a terra prometida, uma terra que parecia vibrar com a presença e a benevolência de Deus.

Nos primeiros anos em Canaã, testemunhamos milagres incríveis, especialmente a bênção dos poços que jorravam água em abundância onde quer que nos estabelecêssemos. Cada poço era uma prova tangível da fidelidade de Deus para conosco, um lembrete constante de Sua promessa e provisão infinitas.

Mas, ao passo que os anos avançavam e nossos rebanhos cresciam, as terras de Canaã pareciam cada vez mais estreitas para acomodar nossas riquezas. Foi então que fiz a escolha fatídica de separar-me de meu tio Abraão, em busca de prosperidade e segurança nas planícies próximas a Sodoma. A promessa de prosperidade e a oportunidade de expandir meus negócios foram como chamas que queimaram minha razão e obscureceram minha visão espiritual.

Sodoma, uma cidade de excessos e decadência moral, logo se tornou meu lar. Testemunhei injustiças diárias e mergulhei em um estilo de vida que me afastava cada vez mais da fé que uma vez me sustentara. Minha esposa e minhas filhas, envolvidas nesse ambiente corrupto, enfrentavam desafios diários; o meu papel era manter essa família sempre protegida e unida.

E então veio o dia fatídico em que os céus se fecharam sobre Sodoma. Os anjos de Deus, emissários de Sua justiça, vieram até mim com uma mensagem de destruição iminente. O mundo ao meu redor desmoronava, e o desespero se apoderou de meu coração. Fomos conduzidos às pressas para fora da cidade em chamas, com ordens estritas de não olhar para trás.

Minha esposa, incapaz de resistir à tentação de olhar para trás, tornou-se uma estátua de sal, uma lembrança vívida de nossos erros e da fragilidade de nossa fé. A perda dela foi um golpe devastador, um testemunho doloroso de como minhas escolhas afetaram não apenas minha própria vida, mas a vida dos que amava.

Agora, nesta caverna escura e solitária, reflito sobre minha vida, minhas escolhas e a graça de um Deus que não nos abandona, mesmo quando O abandonamos. Esta história é minha confissão, meu testemunho de redenção em meio à desolação. Que aqueles que ouvirem aprendam com meus erros e encontrem esperança na infinita misericórdia de um Deus que nos ama além de nossa compreensão.


📖 Arco II: A Promessa e os Escolhidos 

🔗 Capítulo 7 – A Sombra do Altíssimo 

🔗 Capítulo 8 – Nas Asas da Promessa 

🔗 Capítulo 9 – Um Cordeiro Para Deus 

🔗 Capítulo 10 – A Graça que Escolhe 

🔗 Capítulo 11 – Do Sonho ao Destino 

🔗 Capítulo 12 – O Chamado da Graça 

🔗 Capítulo 13 – O Amanhecer da Graça 

🔗 Capítulo 14 – Nas Sombras da Promessa 

🔗 Capítulo 15 – O Presente da Graça 

🔗 Capítulo 16 – Clamor nas Sombras 

🔗 Capítulo 17 – Filho da Terra, Herdeiro da Graça 

🔗 Capítulo 18 – A Luz do Perdão 

🔗 Capítulo 19 – Entre o Medo e a Promessa 

🔗 Capítulo 20 – Preparado para Enfrentar Gigantes!

Navegue pelos capítulos da série Vozes da Graça e acompanhe a jornada.

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